28 de março de 2014

O Cemitério dos Livros Esquecidos

Muito provavelmente, não fossem os meus colegas e amigos booktubers, nunca teria entrado em contato com a obra do espanhol Carlos Ruiz Zafón. Pois foi só depois de ouvir tantas criticas positivas a sua obra que comprei os três livros da série ‘O Cemitério dos Livros Esquecidos’.


O primeiro deles é ‘A Sombra do Vento’, que vendeu mais de 6,5 milhões de cópias em todo o mundo. A história tem início na Barcelona dos anos 40 em pleno regime franquista, quando o menino Daniel Sempere, orfão de mãe, acorda gritando em uma madrugada e seu pai, dono da livraria Sempere e Filho, então decide revelá-lo um grande segredo.

Pai e filho vão parar na porta de um local um tanto sombrio, que no fim se revela um imenso labirinto de estantes e mais estantes forradas de livros. Esse é o Cemitério dos Livros Esquecidos, e a partir do momento em que alguém conhece esse local tem de escolher um livro de lá e jurar protegê-lo para o resto de sua vida.

Daniel escolhe um livro chamado ‘A Sombra do Vento’, escrito por Julián Carax e passa dias intoxicado com a prosa do escritor, mas descobre que quase ninguém o conhece e que praticamente todas as suas obras foram destruídas em um incêndio. As obras restantes são vendidas a preço de ouro, mas há um homem que as compra para queimá-las. E Carax, que viveu por anos na França, foi morto ao voltar para a Espanha, em meio a Guerra Civil.

A partir desse momento Daniel dedica-se a descobrir o que mais puder sobre o escritor e desvendar seus mistérios, ao mesmo tempo em que tenta desvendar os mistérios de sua própria vida, passando da adolescência para a idade adulta, descobrindo o verdadeiro amor e a verdadeira dor da perda.

A escrita de Zafón é carregada de poesia e sentimentos profundos. É impossível não se emocionar ou se colocar na pele dos personagens. Sentimos  as cores e os sabores de uma Barcelona sombria, sempre lidando com o perigo à espreita. Impossível também não se apegar aos personagens. O puro e bondoso Daniel, seu engraçado e sarcástico amigo Fermín e a misteriosa Bea Aguilar.


O segundo volume da série é ‘O Jogo do Anjo’, não é uma continuação de ‘A Sombra do Vento’ e sim é um ‘prequel’ que não parece um, sejamos sinceros. O livro nos apresenta o jovem David Martín, que foi criado na gráfica e redação de um jornal de Barcelona desde que ficou orfão aos 7 anos de idade. David tem um imenso talento para a escrita, e em 1917 começa a publicar no jornal uma história de crime e mistério intitulada “A Cidade dos Malditos’.

Com o tempo David se torna um escritor melhor sucedido, e vai viver em um belo (e assustador) casarão, onde passa dias e madrugadas trancado escrevendo. O escritor tem poucos amigos, mas um deles é o Sr. Sempere (avô de Daniel), dono da livraria Semprere e Filho, e outra é Isabella, filha do dono da venda, que decide ser sua ‘pupila’, mesmo contra a vontade de David.

O Jogo do Anjo dialoga em vários momentos com o primeiro livro da série, inclusive tendo algumas cenas passadas no cemitério dos livros esquecidos. Porém o elemento fantástico e sombrio está muito mais presente nesse livro do que no primeiro, e muitas coisas ficam vagas, cabendo ao leitor interpretá-las.



O terceiro livro, ‘O Prisioneiro do Céu’, tem início em 1957 e é uma continuação do primeiro volume, sendo narrado por um Daniel mais velho, já pai. Boa parte do romance é dedicado a contar a história de Fermín, desde que este foi preso pelo governo no Castelo de Montjuic, até tornar-se mendigo e por fim ser acolhido pela família Sempere.

Enquanto os outros dois livros traziam muitos elementos sobrenaturais, este trata da violência e sofrimentos do mundo real, principalmente dos presos políticos e dos pobres ignorados pelo novo regime.

Mas, por se tratar de Zafón, há sempre surpresas. As histórias dos três livros começam a se entrelaçar e os elementos fantásticos voltam à cena. O final é inconclusivo e o autor está trabalhando no que deve ser o último volume da série.





Sobre o autor

Carlos Ruiz Zafón nasceu em 1964 em Barcelona, Catalunha, Espanha e desde 1993 mora em Los Angeles, onde trabalhou com roteiros para cinema e tv. Hoje dedica-se só a escrever romances, mas também escreve para dois jornais espanhóis – La Vanguardia e El País.


Me chama a atenção o fato de o autor viver a tantos anos longe de Barcelona e mesmo assim ambientar suas obras nessa cidade tão poderosa. É possível perceber, através de sua obra, a forte ligação entre o autor e sua terra natal. Uma cidade misteriosa e envolvente.







No YouTube:







17 de março de 2014

Como 'Gravidade' não é um filme sobre o espaço

Quando Gravidade (Gravity) foi para os cinemas do Brasil, causando todo aquele falatório sobre o novo longa de Afonso Cuarón, fui correndo assistir ao trailer. E naõ foi surpresa nenhuma para mim que logo de cara eu dissesse: ‘Eu filme não é para mim’. Não sou fã de filmes que se passam no espaço, por nenhum motivo real, apenas não me interesso. Mas o que realmente me fez dizer não à Gravidade foi o fato da personagem principal passar boa parte do tempo lutando para respirar.

Como alguém que tem pavor de lugares fechados e coisas do tipo, só de ver ao trailer comecei a ficar com aflição, como se a falta de ar fosse minha. Passado meses do filme ter estreiado, e após ganhar 7 estatuetas do Oscar, resolvi ver o filme junto com meu padrasto e a minha mãe, em casa.

O filme conta a história da Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) , que está em sua primeira missão espacial, com o colega de trabalho Matt Kawalski (George Clooney). A missão é reparar uma base espacil americana e voltar para a Terra. Coisa simples de rotina (para a Nasa, pelo menos).

A problemática começa quando um satélite russo explode e os estilhaços estão à deriva pelo espaço e atingem a base espacil americana, matando a tripulação. Quem fica à deriva no espaço então são Ryan e Matt, lutando para sobreviver e voltar para casa.

Até ai, ok. Nada que me fizesse escrever um post aqui por blog. Porém, depois que já enjoamos de ver os efeitos especiais e tudo de ruim que pode acontecer com a Dra. Ryan, a verdadeira história começa. E foi ai que percebi que Gravidade não é um filme sobre o espaço. Gravidade é um filme que conta a história de uma mãe que perdeu sua filinha e com ela sua vontade de viver e sua fé.

A medida que a Dra. Ross passa por experiências traumáticas, ela redescobre que vale a pena viver e recupera sua fé, em si mesma e em Deus. E não, não estou viajando. Isso fica claro quando na ‘nave’ russa há um close em um santo da igreja ortodóxica católica,, e na ‘nave’ chinesa há um close em um pequeno Buda dourado. Há outras referências, não só espirituais, mas também a cultura pop e outras teorias que não me interessam.



No fim, Gravidade foi um dos filmes mais tocantes que eu já vi. Mereceu os prêmios que ganhou, e Sandra Bullock mereceria muito mais um Oscar de melhor atriz por essa atuação do que por Um Sonho Possível.

6 de março de 2014

Lolita - Vladimir Nabokov

‘Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama’.



Vladimir Nabokov terminou “Lolita” em 1953, após anos lutando com a história, que desde de seu primeiro lampejo, passou por diversas modificações. Após o manuscrito ser recusado por diversas editoras americanas, foi publicado na França em 1955 e em 1958 nos Estados Unidos.

Lolita foi o primeiro romance que o escritor russo escreveu em língua inglesa, depois de ter se exilado na América, fugindo da Rússia socialista. Desde de sua publicação até hoje o livro permanece como um dos mais controversos da história por tratar de um tema delicado e polêmico, a pedofilia.

O livro é um diário escrito na prisão pelo protagonista, o professor de literatura Humbert Humbert, que justifica a existência dos escritos como uma última forma de declaração de amor à Lolita, assim como um registro de suas memórias da garota, pela qual ele desenvolve uma obsessão.

Humbert começa suas memórias na sua terra natal, a França. Órfão de mãe, o garoto foi criado pelo pai em um luxuoso hotel à beira mar. Lá pelos seus 12 anos ele vive sua primeira paixão e sua primeira experiencia sexual, com uma garota da mesma idade, que pouco depois morre.

O protagonista então justifica que desde a perda de sua amada só consegue se interessar por menininhas. Mas não qualquer tipo de menina, e sim aquelas que tem um quê de ninfa, uma sexualidade já latente mesmo na infância. É dai que nasce o termo “ninfeta’.

Após passar algumas temporadas em hospícios, Humbert se muda para os Estados Unidos, e se interessa em alugar um quarto na casa de Charlotte Haze, uma viúva um tanto fútil, mãe de uma garota chamada Dollores, mas a qual todos chamam de Lô ou Dolly. Humbert se apaixona pela garota, e acaba por casar-se com Charlotte só para ficar perto de Lolita (apelido só usado por Humbert).

Enquanto Lolita está passando férias em um acampamento, Charlotte morre e Humbert se torna seu padrasto e os dois desenvolvem um relacionamento doentio, baseado em ameaças, favores sexuais e suborno.

Lolita ganhou o status de clássico graças a prosa de Nabokov. Repleta de cinismo, sarcasmo e sentimentos conflitantes, o autor nos coloca dentro da cabeça e do coração de um homem deprimido e instável, que a todo momento conversa com o leitor, implorando-nos que entendamos os motivos por trás de suas ações.

Até hoje os especialistas em literatura não sabem como classificar Lolita. Romance erótico, novela de costumes, surrealista, modernista, alegoria da velha russa x a nova América… A verdade é que o próprio Nabokov afirma no posfácio “Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos (…) Lolita não traz nenhuma moral a reboque”.

Cabe a cada leitor tirar suas próprias conclusões do livro, e mergulhar no lado escuro do ser humano que muitas vezes preferimos fingir que não existe. Humbert é um homem doente, mas Lolita também é uma garota manipuladora e sádica, assim como Charlotte era uma mãe castradora (para usar um termo freudiano).


P.S: Existem duas versões de Lolita para o cinema, ambas muito conhecidas. Assim que assisti-las venho contar para vocês o que achei de cada uma.



27 de fevereiro de 2014

Como eu Leio


Como a maioria de vocês já devem ter visto, respondi à tag 'Como eu Leio' lá no canal. Porém, a Michas, do La vie en Rose me marcou em uma segunda tag com o mesmo nome. Ela foi criada pelo blog Lendo nas Entrelinhas e consiste em 15 perguntas sobre você e seus hábitos literários.



A aquisição 

1- Sempre compra você mesma seus livros ou tem anjos da guarda? Se tem, quem são eles?
Na grande maioria das vezes eu mesma compro meus livros. Minha família não me presenteia com livros, pois eles acham que já tenho muitos. Porém, minha lindas amigas vez ou outra me surpreendem com um livro dado ou emprestado.

2 - Gasta quanto (em média) por mês em livros? Já estourou o cartão de crédito com livros?
Nunca estourei meu cartão, mas a conta, várias vezes. Nunca por livros, e sim por gastos maiores e imprevistos. Em média devo gastar uns R$ 100 por mês em livros, mas varia muito. Esse último mês, de Fevereiro, comprei bem pouco.

3 -Consegue livros emprestados com frequência? Se sim, quem te empresta normalmente? 
Quase nunca empresto livros dos meus amigos. E quando eles me emprestam é geralmente sem que eu peça, apenas porque eles acham que eu TENHO que ler algum livro.

O Deleite

1- Lê em média quantos livros por mês? 
Leio em média 4, um por semana. Dependendo dos livros consigo ler 5. Não passa disso.

2- Lê em média quantas páginas num dia da semana? E nos fins de semana?
Nossa, não tenho ideia! Provavelmente, em um dia de trabalho na semana devo ler de 40 a 60 páginas, e no fim de semana, se não tiver nada para fazer, devo ler de 100 a 200.

3 - Consegue abandonar um livro no meio da leitura?
Tenho muita dificuldade em abandonar livros! Fico me sentido mal, culpada. Acho isso muito ruim, porque não faz sentido continuar com algo que não está te trazendo nenhum prazer, né? Estou tentando mudar esse meu lado.


O local do Crime

1 -Consegue ler em local movimentado? (ônibus, fila de banco)
Consigo ler em ônibus, mas não é sempre. Ás vezes eu me sinto um pouco enjoada. É estranho porque o enjoo pode ser muito forte ou nem aparecer. Mas eu só consigo ler em paz se eu coloco meu iPod, pois barulho de gente falando me desconcentra muito mesmo. Costumo ler em consultórios ou laboratórios, enquanto espero. Em geral são silenciosos.

2 - Prefere ler na mesa, sofá, no chão ou na cama
Meu local preferido de leitura é a minha cama, sem dúvida! Mas quando canso de ficar deitada vou ler sentada na minha bancada de estudos ou então vou para a sala de estar, quando ela está vazia, pois lá é bem arejado.

3- Qual a hora do dia que prefere para ler?
O horário que eu mais leio é a noite, quando vou deitar. Já é um hábito bem antigo. Quando estou de férias, com horários flexíveis, gosto de ler de madrugada. Mas não me importo de ler de manhã, de tarde, etc. 

Os impedimentos

1 -  É solteira? Se não, seu namorado, noivo, esposo, te dá espaço para ler?
Sou solteira.

2 -  Lê no trabalho? Se sim, qual emprego dá essa dádiva de ler na hora de serviço?
Sou professora de inglês, e quando estou na escola esperando dar meu horário de aula, ou estou no meu intervalo para comer, sempre leio. Claro que não é um tempo muito grande, e ás vezes tenho de usá-lo para trabalhar também, mas quando posso ler, fico feliz.

2-  Já deixou de sair com a galera só pra ler aqueles capítulos irresistíveis?
No momento não estou me lembrando de nenhuma situação em especial, mas é muito provável que eu tenha deixado de sair só porque eu não estava a fim de sair. Eu gosto de ficar em casa, lendo, vendo filmes, séries. Nem sempre sair é minha primeira opção de lazer e descanso.

As Insanidades

1 - Já sonhou ou teve pesadelos vivendo a história de um livro? Qual foi o livro? 
Já sonhei com uma porção de livros! Harry Potter, muitas e muitas vezes, porque né? Minha vida... <3
Sonhei também que estava no mundo de Divergente, mas não me lembro detalhes.

2- Qual a maior loucura que já fez ou que faria para conseguir um livro?
Acho que nunca fiz nenhuma loucura e não sei se algum dia farei uma. Talvez eu ficasse muito animada para conhecer algum autor que eu admiro, e dai poderia fazer alguma loucura do tipo ficar horas em uma fila, mas só.
Uma coisa que talvez possa ser considerada 'loucura' é que na última Bienal do Livro em São Paulo eu fui sem dinheiro nenhum na minha conta corrente. Eu só tinha dinheiro no meu bilhete único e meu cartão de crédito. Não comprei muitos livros, mas os que comprei foi tudo no crédito.

3- Já chorou ao terminar um livro? Foi de felicidade ou tristeza? Qual foi o livro?
Sou bem chorona. É mais fácil perguntar quais livros não me fizeram chorar... Eu choro de emoção por terminar algum livro ou saga impactante na minha vida, como Harry Potter e O Senhor dos Anéis, ou de tristeza quando algum personagem morre, ou então porque eu consigo relacionar a dor de um personagem com a minha vida. Faz sentido?

Para responder essa TAG eu vou marcar a Jana, do Aquela Borralheira, e o Raul, do Tales of a Happy Boy.


A TAG que está no Canal, você pode ver aqui :)


20 de fevereiro de 2014

No país das Maravilhas



Essa tag super divertida e criativa foi criada pelo Vitor, do canal Menino dos Livros, e quem me marcou foi a super fofa Michas Borges do La Vie en Rose.

Regras:  Não usar Alice no País das Maravilhas como resposta para nenhuma questão.
             Escolher um livro correspondente a cada personagem do Alice.



ALICE: É aquele livro que te fez cair em um mundo completamente novo.


O Circo da Noite - Erin Morgenstern



































O Circo é um universo à parte. Diferente de tudo o que já vi ou li na vida. É uma experiência sensorial que te leva para um mundo em que fantasia, mágica e realidade se confundem.


CHAPELEIRO MALUCO: É aquele livro com um protagonista louco.


Para mim essa pergunta é muito polêmica. Existem vários livros, inclusive livros dos quais eu gosto muito, com protagonistas com problemas de ordem psiquiátrica. Agora, chamar uma pessoa doente de louca é algo que não farei, pois é errado e falta de educação.

Por isso escolhi Don Casmurro, de Machado de Assis. Bentinho não é doente, é um homem enlouquecido pelo ciúmes e corroído pela dúvida.


COELHO BRANCO: É aquele livo que atrasou suas leituras.


The Casual Vacancy (Morte Súbita) - J.K. Rowling



O livro é longo e não foi exatamente uma leitura que me cativou. Até a história conseguir me interessar foram 200 páginas à ritmo lento, quase parado.


GATO DE CHESHIRE: É aquele livro que te fez rir muito.


Rick Riordan. Todos os livros do autor são sensacionais e seu senso de humor é único. Sem nunca apelar para baixarias ou coisas do tipo, Rick e faz rir alto esteja eu sozinha ou no meio de um monte de gente.


LAGARTA AZUL: É aquele livro que te fez refletir.


Paper Towns (Cidades de Papel) - John Green




O quieto Quentin e a explosiva Margot conseguiram me fazer refletir sobre um sem números de questões sobre a minha vida e do mundo ao meu redor.


TWEEDLEDEE E TWEEDLEDUM - São aqueles livros muito parecidos.


The Catcher in the Rye - J.D. Salinger e The Perks of Being a Wallflower - Stephen Chbosky



Os livros têm várias similaridades, como tratar de dois jovens com problemas de ordem psicológica, serem romances epistolares (em cartas) e polêmicos. Além de ter uma porção de pessoas que adoram e outra de pessoas que os odeiam.
Vale lembrar que Charlie e Holden são personagens bem diferentes.


RAINHA DE COPAS: É aquele livro cujo o autor adora matar personagens


Trilogia Divergente - Veronica Roth

Quem já leu ou está lendo sabe que a Dona Veronica não poupa seus personagens ou seus leitores de sofrimentos.

4 de fevereiro de 2014

Alice: No País das Maravilhas e Através do Espelho

“If I had a world of my own, everything would be nonsense”




Quando eu era criança eu era apaixonada por certas histórias. Minha preferida era ‘pele de asno’ ou ‘bicho peludo’, dos irmãos Grimm. Mas eu gostava de um monte de outros contos de fadas. Mas havia duas histórias das quais eu não gostava: Chapeuzinho Vermelho e Alice no País das Maravilhas.

Meu problema com Alice não era um só, eram muitos. Eu achava a Alice uma menina muito chatinha e inconsequente. Não aguentava ela crescendo e diminuindo toda hora e, no fim, ela acordar e perceber que tudo foi um sonho. Desde pequena eu gostava de histórias coerentes.

Mas o tempo passou e eis que aos quase 24 anos eu resolvi ler a obra do inglês Lewis Caroll, depois de tanto ensaiar. Li a belíssima edição de bolso de luxo da editora Zahar. Uma curiosidade é que a tradução de Maria Luiza X. de A. Borges foi vencedora da categoria no Prêmio Jabuti. A edição traz os dois livros: “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho” com as ilustrações originais, feitas por John Tenniel (que merecem atenção especial, pois são lindíssimas).

Em 1865 o primeiro livro foi publicado e fez tanto sucesso que foi lido até pela Rainha Vitória. A história começa com Alice entediada lendo um livro sem figuras, sentada no campo, até que vê um coelho branco correndo. O coelho veste casaca e colete e segue dizendo que está muito atrasado, tirando um relógio do bolso. Alice, espantada, resolve segui-lo até sua toca, na qual ela cai...e fica caindo por muito tempo.

O resto da história vocês com certeza conhecem. Alice vai parar no País das Maravilhas, onde tudo o que ela come a faz crescer ou diminuir. Conversa com criaturas bem estranhas, como a lagarta que fuma narguilé, o bebê que se transforma em um porco, o gato de Cheshire, o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março. Sem esquecer que Alice também é convidada para jogar croqué com a Rainha de Copas, que tem o habito peculiar de mandar decapitar qualquer um que não a agrade.

No fim, todas as aventuras de Alice no País das Maravilhas não passaram de um sonho da garota, que acabou adormecendo na relva lendo seu livro sem figuras.



O segundo livro “Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá” foi publicado em 1872. Muitas pessoas não sabem da existência do segundo livro pois No País das Maravilhas foi adaptado para o cinema e para o teatro muito mais vezes.

Como o próprio livro já diz, Alice vai visitar o mundo que se esconde do outro lado do espelho. Por esse motivo, o mundo do espelho é todo ao reverso do nosso mundo, o que rende alguns diálogos bem divertidos entre Alice e as criaturas que ela encontra lá.

Se no primeiro livro o mote principal era o jogo de cartas (baralho), em Através do Espelho a obra navega pelo tabuleiro de xadrez. Alice é uma das peças do estranho jogo entre peças brancas e vermelhas, e a cada capítulo avança algumas casas até se tornar, no final, a Rainha Alice.

Alguns dos personagens usados por Walt Disney em Alice no País das Maravilhas são, na realidade, de Alice Através do Espelho, como os gêmeos Tweedledum e Tweedledee e as flores falantes. Mas o livro ainda tem outros personagens extremamente estranhos e divertidos, como Humpty Dumpty, uma espécie de ovo gigante que fala e é mal humorado, e o Leão e o Unicórnio, que diariamente batalham pela coroa do Rei.

No fim Alice acorda em sua casa, numa poltrona quentinha, com a lareira acessa e sua gatinha no colo. Mais uma vez, tudo não passou de um sonho. E se você, assim como eu, gosta de histórias com um sentido, esse livro não é muito para você.

Lewis Caroll foi um dos precursores do nonsense, que em inglês significa sem sentido, e a proposta desse movimento era exatamente essa, fazer histórias ou poemas malucos que não tinham nenhuma espécie de uniformidade. O nonsense depois influenciou as escolas de arte modernistas, como o surrealismo e o dadaísmo. Por isso qualquer (enorme) semelhança (ou falta de nexo) não é mera coincidência.

Meu processo de leitura foi tranquilo porque depois de anos lutando para entender Alice apenas aceitei que a obra não foi feita para ser entendida. Demorei um pouco mais no segundo livro, pois tem momentos mais arrastados, com muita poesia nonsense. Mesmo assim foi uma leitura muito válida e gratificante. Eu e a Alice ainda não somos lá muito amigas, mas já podemos trocar algumas figurinhas.


 
O Autor

Lewis Caroll nasceu em Cheshire, Inglaterra, em 1832 e seu verdadeiro nome era Charles Lutwidge Dodgson. Foi professor de matemática e por isso, os entendedores de sua obra dizem que há inúmeros problemas matemáticos e jogos de lógica em “Alice”, coisa que é óbvio, eu nunca irei perceber.

Além de ser famoso por suas obras, o autor ficou conhecido por ter relações muito próximas com crianças, meninas para ser mais exata. Ele trocava correspondência com elas e gostava de fotografá-las, inclusive nuas. Polêmicas à parte, nunca ficou provado que ele estabelecia relações sexuais com menores, e sinceramente, esperamos que isso de fato nunca tenha acontecido.

Alice Lidell
Alice nasceu da relação entre Caroll e Alice Liddell, filha do diretor da Universidade em que o escritor lecionava. Em um passeio de barco pelo rio Tâmisa com Alice e suas outras irmãs, Carol, a pedido das meninas, criou um conto de fadas para elas, e depois, à pedido de Alice, o transformou em um livro. A Alice original não é loira, mas sim morena.
Caroll morreu em 1898 em decorrência de uma bronquite.







Meus queridinhos

Tenho três personagens amados em Alice. O gato de Cheshire ou O Gato que Ri, o Coelho Branco e o Chapeleiro Maluco. Para mim cada um deles tem uma simbologia interessante. Gatos são misteriosos e apaixonantes, e um gato que sorri é quase como uma esfinge, pedindo para ser decifrada. O Coelho Branco para mim represente a ansiedade do ser humano, que vive correndo, sempre atrasado, mas que nunca para e pensa. Eu também me identifico com ele porque eu estou sempre atrasada, de verdade.

Por fim, o Chapeleiro Maluco é para mim o único são dentro de um mundo de doidos. Muitas vezes, na nossa sociedade, àqueles que realmente enxergam são taxados de loucos. Ele diz o que pensa e reverte a ordem natural das coisas.


"We're all mad here..."

1 de fevereiro de 2014

Um Bonde Chamado Desejo (1951)

 Por alguém motivo que nem nosso amigo Freud explica, até esse fim de semana eu nunca havia assistido à Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire). O que é muito estranho já que os atores principais são os meus amados Marlon Brando e Vivien Leigh.
O filme é praticamente a peça de teatro homônima, ganhadora do Pulitzer, filmada. Escrita por Tennessee Williams em 1947, estreou na Broadway em 3 de Dezembro do mesmo ano, sendo dirigida por Elia Kazan e tendo Marlon Brando no papel de Stanley Kowalski foi um sucesso instantâneo.

Em 1951 o mesmo Kazan dirigiu a versão cinematográfica e Marlon Brando também manteve seu papel. Porém, a atriz que interpretava Blanche DuBois na Broadway não foi aprovada para o cinema e em seu lugar entrou Vivien Leigh, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz por ‘E o Vento Levou...’.

A história começa com a sulista Blanche DuBois chegando a Nova Orleans para visitar sua irmã casula, Stella (Kim Hunter). Blanche pega o bonde ‘Desejo’ para ir até o lugar decadente em que Stella mora com seu marido, o filho de imigrantes poloneses Stanley Kowalski. Logo fica claro que Blanche não é lá uma pessoa muito comum, extremamente nervosa e preocupada com sua aparência, além de ser viciada em bebidas alcoólicas.




Quando Blanche e Stanley se conhecem é impossível não notar uma tensão entre os dos personagens, que em todo filme se estabelecem como polos opostos. Blanche não consegue disfarçar a repulsa e ao mesmo tempo o desejo que sente pelo cunhado, que é rude, dado à explosões de raiva e sem nenhum refinamento.

O filme é uma sucessão de acontecimentos banais, regados a diálogos em que Blanche expressa toda a sua nostalgia pelos tempos de glória de sua família sulista, e histórias que mesclam realidade com ilusão, já que a personagem claramente tem uma percepção alterada do que é real e imaginário.

Enquanto o tempo passa, o relacionamento de Stanley e Stella fica abalado pela constante presença de Blanche na casa. O casal tem uma relação que beira a doentia. Entre agressões verbais e físicas os dois são ligados por um laço de mútua dependência física e psicológica. Stanley, desconfiado da cunhada, começa a investigar seu passado e descobre que a postura de moça pura e recatada não passa de uma máscara.

Mitch (Karl Malden), um dos amigos de pôquer de Stanley, se apaixona por Blanche, e os dois estão prestes a se casar quando os segredos dela vêm à tona. Em seguida Stella dá entrada no hospital para dar à luz seu primeiro filho. Entre esses dois acontecimentos Blanche entra em um estado constante de ‘sonho’, do qual ela é desperta pela chegada do cunhado.

Os dois estão sozinhos no apartamento e a cena sugere que Stanley violenta Blanche, dizendo ‘afinal, você sempre quis isso’. Então há um corte para alguns dias à frente. Os homens jogam pôquer na cozinha, Stella e sua vizinha cuidam do bebê enquanto Blanche se arruma, pois, de acordo com suas fantasias, ela irá sair em um cruzeiro junto à um milionário.

Na realidade Blanche será levada para um hospital psiquiátrico. Stanley diz que nunca fez nada a ela; e Stella promete nunca o perdoa-lo por ter feito mal a sua irmã. O filme acaba com a célebre fala de Blanche para o psiquiatra: ‘Quem quer que você seja, eu sempre dependi da bondade de estranhos...’ (“Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers…".

O filme até hoje é tido como controverso e subversivo. Na versão original a parte que sugere que o marido falecido de Blanche se matara por ser homossexual foi censurada. Ainda há toda a questão complexa do relacionamento abusivo de Stanley e Stella. Os dois são unidos por uma forte atração sexual, que fica evidente mesmo sem haver cenas de sexo ou nudez.

Outra questão polêmica é a loucura e carência de Blanche. Dizem que a personagem foi inspirada na irmã de Tennessee Willians, que sofria de problemas mentais. Porém, ao abordar temas chocantes e viscerais, tanto a peça quanto o filme propiciam uma experiência catártica, e leva o espectador a se colocar no lugar de casa uma daquelas personagens decadentes, vivendo na precariedade e em meio a uma sujeira que parece ser inata à natureza humana.


O filme rendeu mais um Oscar de melhor atriz à Vivien Leigh, e de melhor ator e atriz coadjuvante. Marlon Brando foi indicado como melhor ator e Kazan como melhor diretor. Os dois perderam, mas ganharam no ano seguinte com o também clássico “Sindicato de Ladrões’. Mas esse filme é assunto para um outro post...