12 de maio de 2015

Ligações - Rainbow Rowell


A americana Rainbow Rowell é uma das minhas escritoras contemporâneas favoritas. Desde que li o lindíssimo ‘Eleanor& Park’ fiquei desesperada para ler qualquer coisa da autora. Claro que com ‘Ligações’ não foi diferente. Ao ler a primeira página já não consegui mais largar.

Georgie McCool é uma roteirista de séries de comédia para tv, mãe de duas menininhas fofas e casada com seu namorado da faculdade, Neal. Apesar de se amarem, o casal parece nunca estar na mesma sintonia. Georgia passa muito tempo fora de casa, trabalhando, enquanto Neal faz as vezes de ‘dona de casa’.

Faltam poucos dias para a família embarcar para Omaha, no Nebraska, quando Georgie e seu melhor amigo recebem a proposta de trabalho que sonharam por toda a sua vida: produzir sua própria série de tv. Sendo assim, Neal e as filhas vão viajar e Georgie fica na Califórnia, se sentindo sozinha e refletindo se esse é o fim de seu casamento ou não.


Após várias tentativas frustradas de falar com o marido pelo celular, e estando se sentindo muito abandonada, Gorgie decide passar uma noite na casa da mãe, em seu antigo quarto de adolescente, onde há um telefone fixo amarelo. Ao ligar para a casa da sua sogra, em Omaha, ela percebe que o telefone a conecta com Neal, mas não o Neal de quase 40 anos, casado e com duas filhas, mas o Neal de 1998 há uma semana de a pedir em casamento.

 Desse momento em diante a roteirista vai relembrar todos os momentos de seu relacionamento com o marido e tudo o que os levou a esse momento de crise no casamento, e, o que ela pode fazer para salva-lo, além de tentar entregar 4 roteiros de sua nova série até o dia de Natal.




Como o primeiro livro de Rowell, ‘Anexos’, ‘Ligações’ é voltado para um público mais adulto, e apesar de sua história ter um elemento fantástico – um telefone que liga para o passado – sua narrativa e temática falam do dia- a- dia e da vida de pessoas comuns, que sofrem por amor, sofrem para conciliar a vida familiar e a vida profissional, têm de viver para agradar pessoas diferentes e ainda buscam a felicidade.

Os diálogos são fluídos, as personagens secundárias extremamente cativantes e divertidas. A autora mescla momentos de reflexão com cenas engraçadas, o que torna a leitura leve e satisfatória. Como já é característica da escritora, o final não é fechado e completamente conclusivo. Ele deixa várias questões em aberto, problemas a serem resolvidos, tal como é a vida.



A edição brasileira, publicada pela Novo Século está linda, como é possível ver nas fotos, e segue o padrão da versão americana.  Há um ou outro errinho de revisão, mas nada que atrapalhe a leitura e o entendimento, e a tradução está realmente boa.

E vocês? Já leram Ligações ou outros livros da autora? Pretendem dar uma chance? Conte o que me achou nos comentários. Beijos <3 o:p="">

20 de abril de 2015

A Segunda Pátria – Miguel Sanches Neto


Já pensou se, na Segunda Guerra Mundial, o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, tivesse se aliado ao Eixo e não aos Aliados? Já pensou se o sul do Brasil, majoritariamente colonizado por alemães, tivesse sucumbido ao regime nazista?

Pois essa é a premissa de ‘A Segunda Pátria’, do escritor paranaense Miguel Sanches Neto. A obra é dividida em quatro partes, e segue cerca de quatro núcleos de personagens. A história se inicia no ano de 1940, em Blumenau, quando o engenheiro negro, Adolpho Ventura, começa a sentir que a cor de sua pele é agora um problema para seus conterrâneos.

A partir daí, Adolpho começa a ser humilhado por antigos amigos, ignorado por conhecidos, e vê a sua vida e de seu filho recém-nascido (fruto de uma união com uma alemã) mudar para sempre.

Em outro foco narrativo conhecemos Hertha, filha de alemães, nascida no Brasil, e criada por um tio. Desde muito nova Hertha foi introduzida à juventude hitlerista, chegando a viajar para a Alemanha para conhecer seus ‘companheiros de luta’. Considerada uma das mulheres mais belas da raça ariana, a garota sempre teve uma sexualidade muito aflorada e liberta.


Seguindo esses dois personagens tão distintos, um homem negro, de origem muito pobre, mas que é extremamente inteligente e estudado, e uma ariana que não estudou, mas usa da sedução para atingir seus objetivos, vemos como o partido nazista passa a comandar Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, sem o menor empecilho por parte do governo brasileiro.

Aqui, os perseguidos em maior escala serão os negros, que, vistos como uma raça inferior, são conduzidos às fazendas de trabalho forçado, quase como uma volta ao período terrível da escravidão.

‘A Segunda Pátria’ é um exercício de ficção, mas que se baseia em fatos e pessoas que realmente existiram. De nenhuma forma o romance é fantasioso e recorre a explicações mágicas para acontecimentos que poderiam um dia ter acontecido em nosso país, apesar de não fornecer todas as respostas quanto a como seria esse regime nazista no Brasil.


Porém, acredito que fazer um tratado sobre esse possível rumo político não era a intenção do autor, que mais queria mostrar como vida de pessoas comuns podem ser dilaceradas por ideologias que excluem e odeiam tudo o que é diferente, assim como a devastação da Guerra.


A linguagem adotada por Miguel Sanches Neto faz juz ao tema. É seca, quase autoritária. Não há espeço para poesia quando o assunto tratado é tão árido. ‘A Segunda Pátria’ é uma excelente leitura, principalmente para se pensar e refletir sobre o Brasil que foi, que é, e que pode vir a ser.



2 de abril de 2015

Alltruísmo - Guilherme Ramos


'Alltruísmo' é o livro de estreia do brasileiro Guilherme Ramos, lançado no mês passado (Março) pelo selo Talentos da Literatura Brasileira, da editora Novo Século.

O livro é uma coletânea de poemas, crônicas e contos do também publicitário. Vários temas são abordados, a começar pelos relacionamentos amorosos, os encontros e desencontros da vida. Depois, há a abordagem das relações de amor familiar, as relações de trabalho, do homem com seus iguais e do home com o dinheiro. E, por fim, da busca pela harmonia, tanto das relações interpessoais como também do homem com sua espiritualidade.

Todas as partes do livro são bem interessante porque Guilherme trabalhou por anos na área de recursos humanos, estudou psicologia, e segundo o próprio autor, sua inspiração vem dos seres humanos e suas relações, tudo aquilo que ele vê e sente se transforma em arte.


Para mim, a parte mais interessante é como Guilherme aborda, de forma bem humorada e inteligente, o fato de os seres humanos estarem cada vez mais distantes, uns dos outros, graças as suas diferentes visões, pontos de vistas e falta de tolerância.

A edição é muito bonita, a começar pela capa, com uma ilustração em aquarela. Dentro do livro há poesias gráficas, além de algumas bonitas ilustrações.


Indico o livro para todas as pessoas que querem conhecer novos autores, incentivar a literatura nacional. Além disso é uma ótima ideia de presente. No final do livro, o próprio Guilherme propõe que você dê seu exemplar a outra pessoa, circule suas ideias. Afinal, de que serve um livro se não for lido?


Você tem carne pra quê?

Conforme ampliamos nossa consciência, aceitamos a possibilidade de outras dimensões; isto é, já não é mais útil acreditarmos que a verdadeira vida se expressa somente com carne, osso, verdades relativas - fruto da doença crânica desse plano: egoísmo.

Guilherme Ramos


26 de março de 2015

A Mais Pura Verdade – Dan Gemeinhart


Em seu primeiro romance o americano Dan Gemeinhart narra a história de Mark, um garoto de cerca de 10 anos que decide fugir de casa, levando uma mochila, uma máquina fotográfica analógica e seu cão vira-lata, Beau.

Apesar de querer ser como todas as crianças e fazer coisas normais de criança: ir à escola, brincar a tarde com sua melhor amiga Jessie e fazer viagens, Mark cresceu entre consultórios médicos e hospitais, além de longos períodos trancado em casa e vendo seus pais chorarem.

Agora, ao saber que sua doença voltou, Mark toma uma decisão importante: Não irá mais se tratar. Ele vai realizar seu grande sonho de escalar o Monte Rainier, conforme um dia prometeu a seu avô.


Apesar de parecer mais uma história triste sobre o câncer e suas dificuldades, Dan Gemeinhart dá um novo enfoque ao tema, mostrando a visão de uma criança que sente que seu tempo de vida na Terra está se esgotando.

É incrível entrar na cabeça de Mark, nos capítulos narrados por ele, e notar as diferentes emoções que o tomam a cada momento. Revolta, raiva, tristeza e inconformidade em alguns momentos, e alegria, gratidão e esperança em outros. O leitor realmente adentra um coração dividido entre a certeza da morte e a vontade de viver.


Porém, não se deixe enganar achando que esse é um daqueles livros que vai te fazer chorar de soluçar e perder o sono. Mark é um garoto de bom coração, assim como sua melhor amiga, que narra os capítulos intermediários. As mensagens que os personagens passam são sempre cheias de amor e lealdade.

Como professor de uma escola primária, Gemeinhart sabe escrever para o seu público, assim como retratá-lo sem cair em clichês ou melodrama. Indicado para jovens leitores, a partir dos 10 anos. Com certeza você irá se emocionar com a coragem de Mark, a bondade dos personagens secundários, e se apaixonar por Beau, seu fiel escudeiro.




13 de março de 2015

Colonia del Sacramento - Uruguai

Voltando a falar da viagem láááá do final do ano, vou contar pra vocês como foi nosso 4ª dia no Uruguai. 

Acordamos super cedo e fizemos check out do hotel. Dissemos adeus à Montevidéu e fomos só nós três (eu, mamis e meu padrasto) junto a um guia para a cidade de Colônia del Sacramento, que fica a umas três horas da capital. 





Colonia é a cidade mais antiga do Uruguai, e foi fundada pelo português Manuel Lobo (Governador da Capitania do Rio de Janeiro) em 1680. A cidade ficou muitos anos passando das mãos dos portugueses para as dos espanhóis, e vice-versa. Por isso mesmo o local tem traços das duas arquiteturas, lembrando às vezes muito as nossas cidades históricas de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Colonia é um Patrimônio da Humanidade reconhecido pela UNESCO. E a cidade é maravilhosa mesmo. O centro histórico é o grande charme, com suas ruas de paralelepípedos e casarões antigos. A praça principal conta com a catedral e a casa de Manuel Lobo.








Na praça central também há muitos restaurantes e barzinhos cheios de turistas, afinal essa é a principal  fonte de renda da cidade. No dia em que estivemos lá o calor estava insuportável, o que fez com que cada pequena andada pela cidade nos deixasse cansados, e por isso não aproveitei tanto. Eu queria filmas e fotografar cada cantinho, pois sou apaixonada por cidades históricas.

Foi lá também que provei o sorvete artesanal mais maravilhoso do mundo, que colocou as super famosas Freddo e Baccio de Latte no chinelo. Tomei um sorvete de framboesa e de doce de leite fantástico.

Existem três pontos turísticos 'principais': A antiga muralha que cercava a cidade, a praça de armas e a Calle dos Suspiros (Rua dos Suspiros). Essa rua fica perto do porto e era onde ficava o bordel da cidade, então, quando os marinheiros aportavam na cidade, iam para essa rua, e suspiravam pelas belas mulheres. 




Outro ponto turístico muito bonito é a antiga arena de touradas. A construção é linda, mas por não ser  mais usada (graças a Deus as touradas são proibidas no Uruguai há anos) está se deteriorando e virou casa para os pombos da cidade.

Lá pelas 4:00 da tarde fomos para o porto de Colonia onde pegamos o BuqueBus, um barco hiper confortável que faz o trajeto Colonia - Buenos Aires. As passagens já haviam sido compradas aqui no Brasil. Mas Buenos Aires é assunto pra outro post  ;)

Colonia foi sem dúvida um dos lugares mais lindos que já conheci, e espero um dia voltar lá com menos sol e mais tempo. Não deixe de conferir o vlog desse dia no canal. 

8 de março de 2015

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguya Hime no Monogatari, 2014)


Vou repetir aqui no blog o que já disse lá na página do Facebook. Kaguya Hime não é um filme, não é uma animação. É uma obra de arte sublime e primorosa. Dirigido por Isao Takahata, co- fundador do célebre estúdio japonês de animação Ghibli, e produzido da maneira tradicional (com lápis, tinta e papel), o longa é uma adaptação de uma das lendas mais antigas do Japão. 

O Cortados de Bambu ou Kaguya Hime, como é conhecido, conta a história de um pobre cortador de bambu, que um dia encontra uma menina muito pequena dentro da planta e então começa a cria-la, junto com sua mulher, como sua filha. Em seguida, o cortador começa a achar ouro dentro entre os nós do bambu, o que o leva a crer que sua filha adotiva é uma princesa vinda do céu e merece ser criada como tal, com uma educação formal e luxo.

A animação segue a história milenar à risca, passando pelos anos de educação da princesa, os 5 nobres que a cobiçam, até sua beleza chegar aos ouvidos do Imperador, que a quer como sua esposa. Porém, como é marca registrada do estúdio Ghibli, cada passagem é repleta de magia, beleza e inúmeros significados. Não se deixe enganar, Kaguya Hime não é um simples conto de fada com final feliz, com uma única moral da história. É um filme que mostra diferentes e complexos conflitos da alma humana e do mundo que nos cerca.




É preciso exaltar a maestria de Takahata, que produziu uma animação tecnicamente impecável, que difere da mesmice do 3D, é extremamente autoral, e mescla estilo ‘aquarela’ com pintura a ‘lápis’, cenários maravilhosos e narrativa emocional. A trilha sonora de Joe Hisaishi também é uma obra de arte, se casa perfeitamente com os momentos mais alegres e parados do filme, mas também é responsável por dar mais emoção (visceral) as cenas mais ágeis e tristes.


Infelizmente a Academia não o premiou com o Oscar de melhor animação, por não ser um filme americano, mas Kaguya é a essência da boa animação, a combinação de arte e magia. Só tome cuidado se você não tem intimidade com a animação não americana. A narrativa é lenta e subjetiva, e o filme tem 2 horas de duração.


27 de fevereiro de 2015

Objetos Cortantes – Gillian Flynn

Camille Preaker é uma repórter de cerca de 30 anos em um pequeno jornal de Chicago, Illinois. Discreta e solitária ela trabalha na cobertura de crimes, até que seu editor a manda de volta para sua cidade natal, Wind Gap, no estado do Missouri, onde, aparentemente, garotinhas estão sendo mortas em série e seus dentes arrancados.

A partir da premissa um tanto assustadora, Gillian Flynn instiga os leitores a mergulhar na mente da personagem principal, e narradora da história, e tentar entender sua personalidade, a cada capítulo revelando um pouco mais de seu passado confuso e traumático. A cada página queremos entender mais e mais essa mulher que não quer voltar para casa, não tem amigos, quase não tem contato com a mãe, bebe em horas inadequadas, e tem uma irmã mais nova que ela mal conhece.


Apesar de tratar de uma investigação e cassada policial – quem matou as garotas? Por que queriam seus dentes? – ‘Objetos Cortantes’ vai muito além do clichê de tentar decifrar quem é o assassino.  O livro nos apresenta uma cidade cheia de histórias, fofocas, intrigas, jogos de poder e hierarquia social, em que bebidas, sexo e medicamentos controlados são usados para disfarçar vidas mesquinhas e passados aterrorizantes.

Mais do que contar uma excelente história, Gillian Flynn faz um recorte psicológico de seus personagens, mostrando um lado sombrio da mente humana e como as relações familiares podem deixar marcas profundas, sejam de amor ou de dor. 

‘Objetos Cortantes’ não parece um romance de estreia cambaleante, em que a autora tenta agradar a diferentes públicos. Ela não tem medo de colocar o dedo na ferida e incomodar os leitores. É uma obra visceral, de leitura voraz e vertiginosa.


Gillian Flynn ficou mundialmente conhecida por seu terceiro romance, ‘Garota Exemplar’. Existem pontos comuns entre os livros, além do mistério. Cidades pequenas do Missouri, famílias desestabilizadas, transtornos psiquiátricos e jornalismo. Se em ‘Garota Exemplar’ a autora critica o sensacionalismo na cobertura de crimes, em ‘Objetos Cortantes’ n´so acompanhamos uma jornalista em busca de fontes, declarações, e a discussão entre o que é notícia e o que é busca pela ‘audiência”.


Nota importante: Evite ler a sinopse do livro, pois revela muito do enredo e da personagem principal, e os mistérios sobre a personalidade de Camille é uma das características interessantes do livro.